O seu futuro é analógico? A unicidade de uma holga e as obras do acaso

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Quais as vantagens de se ter uma holga 120 cfn? Apesar de todos os aparatos tecnlógicos porque ainda existem pessoas que optam pelo método analógico? Quando o mundo da lomografia é descoberto uma infinidade de novas possibilidades de enxergar o mundo se revela.

Imagine o que já foi feito desde o primeiro disquete tijolão de 80kb até o blu-ray; do projetor de 16 mm até o cinema 3D; do vinil até o mp3 player e por aí vai. Agora pense em como tudo isso que o que já foi feito muda significativamente nossas vidas. Sei lá, se considerarmos quantas músicas podemos carregar nos mp3 players, quanto isso daria em quantidade de Lps? Sem contar que ainda se pode escutar todas elas em qualquer lugar. E se já era fantástico curtir um mundo totalmente novo nas telonas, agora as coisas saem dela e quase te tocam.

O mesmo acontece com a maneira como capturamos o mundo através do click de nossas câmeras. Desde a primeira fotografia feita por Joseph Nicéphore Niépce em 1826 até hoje, tente imaginar o que já aconteceu. Muita coisa. E especificamente no ano de 1982 por causa de uma câmera chamada Holga lançada em Hong Kong, o olhar de toda a comunidade de fotógrafos começou a ver o que nunca se viu antes. Essa tal de Holga pelo baixo custo de produção – pois é feita toda de plástico, inclusive as lentes (isso mesmo) – foi considerada uma câmera de brinquedo, que era mais barata que o filme e o processo de revelação juntos. Então porque diante de toda a comodidade que as máquinas podem me oferecer, porque deixo minha câmera digital em casa e levo comigo para onde quer que seja, minha Holga 120 CFN? Porque prefiro gastar grana com filme e com revelação? Seria tão mais fácil carregar no bolso da calça jeans uma câmera slim, com memória infinita, bluetooth, wireless, touch screen, USB e que quase leva café da manhã na cama.

Ao contrário de todas essas mordomias e a certeza de um cartesiano resultado de milhões de pixels que podem ser corrigidos no photoshop e salvos no computador, gosto de poder sempre ser surpreendido com os efeitos mais inesperados e únicos, que somente ela, a Holga faz. Só ela, te dá de presente o que se chama “light leaks” (incidências de luz sob o negativo). Que foi o que aconteceu quando estava eu no maior museu aberto de Arte Contemporânea da América Latina, o Inhotim – localizado na cidade de Brumadinho – Minas Gerais – e registrei com minha Holga a obra Beam Drop, que é “uma escultura em grande formato, localizada no alto de uma montanha, feita de 71 vigas de construção jogadas por um guindaste de uma altura de 45 metros, dentro de uma vala cheia de cimento fresco, durante um período de 12 horas”. Fiquei fascinado com a sensacional obra do acaso. E tem muito mais. Gosto das diferentes cores do flash e do barulhinho de quando ele carrega e de quando ele dispara. Do plástico leve e brilhante. É divertido quando as pessoas me perguntam se ela “é de verdade” ou se vai esguichar água. Gosto do contraste forte e inimaginável. Colocar um filme é um ritual mágico. Ter minha própria Lomowall na parede da sala me faz lembrar todos os dias, de todos os momentos únicos que vivi com meus amigos e minha câmera. Gosto de descobrir a cada dia um truque diferente que muda a cor, que sobrepõe imagem, que muda a silhueta, que transforma a perspectiva. Prefiro imaginar. Gosto de saber que nunca se esgotarão as possibilidades… que todos os momentos registrados serão únicos e para sempre. Prefiro inventar. Portanto, meu futuro é analógico, e o seu?

Referências:
Lomographic Society International
“Inhotim”: http://www.inhotim.org.br/

written by -fdd- on 2010-10-26 #gear #review #light-leaks #minas-gerais #holga #museu #inhotim #beam-drop

One Comment

  1. renatamotteran
    renatamotteran ·

    Belíssimo post! Parabéns! Descreveu bem a sensação de se levar a vida fotográfica analógica. Viva o barulhinho do flash qdo carrega! <3

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