O ideal lomográfico

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Após disparar inúmeros frames, avançar inúmeros rolos, capturar inúmeras imagens, não dá pra deixar de divagar sobre o raciocínio de porquê se aproximar de algo tão ontem, uma tecnologia tão obsoleta. Num nível pessoal, não é por causa de ser moda ou legal, mas talvez por causa de ser um bem-vindo desprendimento das normas e o senso de novidade que isso trás.

Porquê você Lomografa?

Com a onda, se não um massivo fluxo de pessoas entrando na Lomografia, não podemos deixar de pensar na razão de ser por trás de todo essa febre. Todo o conceito de Lomografia, de fotografar de forma descuidada, completado pelos subtons minimalistas, estão aí por décadas. O que a Sociedade Lomográfica fez foi batizar com um nome e gerar interesse suficiente para se tornar cult pelo mundo todo. Deixando de lado um eterno debate entre branding e estratégias de marketing, o quê exatamente pode ser considerado Lomografia? O quê isso significa?

Pode soar preconceituoso mas o que a Lomografia evita são fotografias baratas, imagens recuperadas digitalmente para passarem como boas ou até mesmo passáveis. Não vou entrar em nuances de qualidade de filme e a conveniência do digital já que toda essa argumentação tem se tornado extensa e francamente, pedante. Com o advento da tecnologia, o erro da maioria das pessoas é a noção pré-concebida de ajustar e manipular uma foto mesmo antes de tirá-la. Admitidamente a maioria, se não todas as nossas fotos, digitais ou não, poderiam ser benficiadas com um pouco de Photoshop. Mas a questão é: Você precisa?

Créditos: cruzron

Detratores são rápidos para apontar toda a prática como um exercício de futilidade. Fotos aleatórias turvas, fora de foco, objetos diários são julgados como sem sentido e uma perda de tempo. Entretanto, Muitas críticas assumem e acusam as lomografias de serem nada além de fotos com sorte, estar no lugar certo e na hora certa com o faixo de luz vazando e acertando o espaço mais oportuno. O que muitos não conseguem entender é que esses “felizes acidentes” como chamam ainda envolvem composição e um processo de pensar e demonstrar de um desejo fervilhante de mudar a forma como percebemos os objetos cotidianos, e de envolver e receber o inesperado.

O que a Lomografia oferece é uma perspectiva completamente fresca e diferente de olhar e ver as coisas. Ela transcende as armadilhas do cotidiano, do mundo prosaico e te convida a pensar. Estabelecendo um paralelo com inquietação metafísica, ela fornece meios “para abandonar – não as coisas da vida cotidiana – mas o significado agregado à elas atualmente aceito ou para questionar o valor estabelecido a eles (Pieper).” Lomografia é mais do que vinhetas, mais do que contrastes elevados associados com isso, mas tem a ver com o ato em si.

Créditos: cruzron

No final das contas, toda a coisa não é a bipolaridade de filme vs. digital, mas de um convite a pensar, um convite de sair da caixa e ver e apreciar o cotidiano e o mundano com novos, frescos olhos. O quê você acha?

written by cruzron on 2010-08-20 #lifestyle #analogue #philosophy #lomography #existentialism #estilo #existencialismo #filosofia
translated by red_baron

7 Comments

  1. itorres
    itorres ·

    Apoio. E vou além:
    Creio que a lomografia trás uma ótima metáfora à nossa vida. Hoje estamos num mundo rápido, onde tudo é passageiro, estamos superficiais, não vemos conteúdo nas coisas e nos acostumamos a isso assim como as fotos digitais, temos cameras sempre às mãos e isso nos dá um desleixo, esquecemos a importância que tem uma foto, deixamos de compo-la, tiramos foto que nem bebemos água. A Lomografia surge aí para nos mostrar o verdadeiro valor de uma composição, não nos preocupamos em apenas apertar um botão e tirar ilimitadas mostras superficiais da vida, mas nós nos preocupamos com detalhes, nós realmente nos preocupamos! Fazemos de tudo pra tirar A Foto, aquela Foto que você vai esperar o momento certo pra deixa-la perfeita e esperar ancioso para que tenha ficado, deixando a cargo de terceiros fatores (humanos, naturais e químicos) para que uma única foto tenha sucesso e assim nos dar uma grande satisfação. E caso não tenha, não desistimos. 
    Enfim, a Lomografia pode ser uma "moda" pra alguns, mas para mim vai mais além chegando a ser uma filosofia que nos mostra exatamente como devemos encarar nossa vida. Compondo-a minunciosamente dando valor a detalhes visíveis e invisíveis. 

  2. leocardarelli
    leocardarelli ·

    A lomografia é um estilo de vida. Com o passar do tempo, ela passa a ser transparente, a se fundir com o cotidiano de cada pessoa. Despretenciosamente, por diversão, ou por algo mais sério, pela arte.

    A lomografia é arte. É uma forma de se expressar, de traduzir e interpretar o mundo. Não é o mundo como vemos. Talvez como gostaríamos de ver. Nunca é apenas como a câmera o vê. É como o acaso o vê.

    A lomografia é o acaso, é abrir mão do controle. Vivemos em um mundo que esnoba as imperfeições, demanda covardemente perfeições e, historicamente, conta eventos sempre sob a ótica dos vencedores, detentores do poder. É uma força libertadora, rebelde.

    A lomografia é liberdade, rebeldia. É sair da frente dos computadores, desbravar o mundo, embora milenar. É dar valor às pequenas coisas, às grandes coisas, ou simplesmente a qualquer coisa. É aprender a amar de verdade.

    A lomografia é amor. E o amor é inerentemente indescritível.

  3. paolacardarelli
    paolacardarelli ·

    Bonitos comentários!! Voltando ao texto original, lomografia é um convite a pensar e apreciar. Parabéns ao tradutor por tornar o texto mais assessível.

  4. izaiza
    izaiza ·

    A volta ao inesperado :) simplesmente, amo!

  5. papaifelps
    papaifelps ·

    A lomografia é busca do simples. É saber apreciar um momento e esperar pelo momento certo pois você sabe que um filme tem limites diferentemente de um cartão de milhares de bites. Acredito que só quem iniciou no mundo da fotografia analógica busca tal regresso, exatamente pelo fato do mundo superficial que o mundo da fotografia digital nos oferece atualmente. Ótimo tema abordado no post. Parabéns! Let's lomo :P

  6. syntaxfree
    syntaxfree ·

    Eu consigo ver três definições diferentes, não inteiramente conflitantes, de "lomografia".

    Em primeiro lugar, há o culto aos efeitos produzidos pelas câmeras da LOMO, fábrica soviética em Leningrado/S. Petersburgo. A Lomography reengenheirou a LC-A e a Lubitel, e em alguns lugares distribui câmeras soviéticas como a Smena. Os soviéticos tinham uma idéia de popularização da fotografia parecida com a nossa idéia de popularização do carro, e com a ocupação soviética da Alemanha no fim da segunda guerra, fábricas inteiras da Contax foram desmontadas e remontadas em território russo, produzindo inicialmente clones da Leica (como a FED) e da Rolleiflex (Lubitel) mas seguindo todo seu caminho próprio através de mutações idiossincráticas dos conceitos clonados sob o gosto russo e as limitações de controle de qualidade inerentes ao sistema econômico soviético.

    Sob esse prisma, é difícil explicar aos outros por que câmeras como a Diana e a Oktomat são "lomográficas", a não ser expandindo o conceito de lomografia. De fato, a LC-A tem diafragmas abertos que a Diana não tem, e conseqüentemente tem aplicações bastante diferentes -- funciona melhor em situações de baixa luz que a Diana.

    Em segundo lugar, existe a idéia de "câmeras de plástico", "toy cameras" em inglês. A coisa toda tem sobretons de fotografia fine art explícitos, e "toy camera" não é propriamente pejorativo, da mesma maneira como "aquarela" (em oposição à tinta a óleo dos grandes mestres) não é pejorativo. A Lomography levou este conceito ao extremo com os Lomolitos, câmeras tão baratas que a gente não liga se quebrarem ou roubarem. Daí a ênfase em lentes de plástico, soft focus, múltiplas exposições, etc.

    Em terceiro lugar, é comum falar de um espectro entre o Cartier-Bresson (que é um artista beirando o fotojornalismo, com suas fotos de "momento oportuno" e técnica mais ou menos simples) e o Ansel Adams (que desenvolveu ao extremo a técnica criando sistemas e escrevendo livros, e tirava imagens extremamente bem-expostas, paisagens PB melhores do que 90% das paisagens a cores que se vê na internet). Sem conotações políticas, a lomografia fica ainda um pouco mais à esquerda do Cartier-Bresson, flertando com o pictorialismo dos primórdios da fotografia mas enfatizando o registro do "momento crucial". O manual da Diana tem o melhor termo para isso: "experimental snapshot".

    Sobre o digital, as melhores DSLRs começaram a alcançar a qualidade do filme 135 em meados de 2009. São uma ferramenta para profissionais, que precisam tirar consistentemente imagens razoavelmente boas de uma situação para a qual foram contratados. As compactas é que devem ficar obsoletas em alguns anos, porque não atendem ao amador entusiasta da fotografia -- eu sofri durante um bom tempo com uma Lumix para forçar os diafragmas e tempos de exposição que eu queria subvertendo seus modos automáticos -- e estão sob pressão "de baixo", com câmeras de celular cada vez melhores. Eu estou com uma Cybershot impressionante, que faz HDR on-the-fly quando detecta uma imagem difícil, mas praticamente tudo isso é software e pode ser emulado em um celular.

    Então a lomografia é essencialmente um hobby -- até porque o workflow de revelar, escanear, etc. não fica barato. Sempre tem alguém rock'n roll o suficiente para ir a um photo-shoot contratado com uma Diana, mas isso é como uma cover de Talking Heads que toca em casamentos. Lomografia é para amadores, mas "amador" não é uma palavra pejorativa como muita gente pensa; a gente vai atrás das imagens que nos inspiram, e não como uma iniciativa comercialmente viável, mas como um hobby -- algo no qual enterramos dinheiro porque gostamos de fazer.

    Arte, claro, é um hobby que deu muito certo. Alguns lomógrafos vão se tornar artistas porque têm um olho melhor para luz e um senso de oportunidade melhor, da mesma forma como guitarristas "amadores" às vezes formam bandas interessantes. E quer saber? I know it's only rock'n roll but I like it.

  7. syntaxfree
    syntaxfree ·

    Momento hipergrafia -- eu praticamente escrevi um ensaio em um comentário.

    Versão curta: lomografia = rock'n roll!

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