Reconstruíndo Memórias com o Photohoku

Se você pudesse ter apenas um tesouro com você para salvar de um desastre iminente, o que seria? Esta foi a questão levantada e respondida pelos fundadores da Photohoku, um projeto que visa ajudar as pessoas a reconstruir suas memórias com fotos e álbuns de família depois do trágico terremoto de Tohoku em 2011.

Foto por Maria Golamidov

Muitos de nós sabemos o papel ea importância das fotografias na vida do homem: elas nos trazem de volta aos tempos antigos, memórias perdidas e rostos esquecidos. Assim, no caso de um acontecimento trágico ou desastre iminente, muitos de nós se apegam a fotos dos amigos e familiares. Por que fotos? Porque, como Brian Scott Peterson e Yuko Yoshikawa colocam, tudo é substituível.

Em razao do terremoto de Tohoku de 2011, Brian e Yuko, decidiram iniciar um projeto chamado Photohoku, como uma forma de ajudar aqueles que perderam muito com o terremoto e os tsunamis. Com o nome do projeto está sendo uma junção de “foto” e “Tohoku,” seu objetivo é “ajudar a reconstruir e reiniciar os álbuns de família das pessoas afetadas pelo desastre.”

Nós acreditamos que sua causa é algo que cada Lomógrafo deve conhecer, entao entramos em contato com Brian e pedimos a ele para nos contar a história por trás Photohoku.

Photo by Allison Kwesell

1. Quem surgiu com a idéia de criar o Photohoku? Era uma iniciativa de grupo desde o início?

Photohoku era uma idéia colaborativa da Yuko Yoshikawa e minha.

Nós tínhamos colaborado em um projeto de retratos de família por aproximadamente um ano antes de iniciar Photohoku. O terremoto de Tohoku e a tsunami ocorreram durante esse tempo, e como a maioria das pessoas, nos entregamos de coraçao para aqueles que perderam tudo. Entristecidos e determinados a ajudar o povo de Tohoku, nos sentimos compelidos a ajudar, mas como muitos, nós não sabíamos exatamente como.

Nós nos envolvemos em uma série de projetos de caridade, incluindo um livro de fotos de colaborativos, um leilão de fotos, e nosso levantamento de fundos através do nosso projeto de retratos de família. E assim fomos capazes de levantar uma quantia substancial, o que nos inspirou a continuar.

Quando consideramos o número de famílias afetadas pela tragédia que tinham perdido suas coleções de fotos inteiras, e como nós tínhamos colaborado no último ano, tornou-se óbvio para nós como poderíamos ajudar. Aplicamos as mesmas idéias do nosso projeto de dar para as familias o tesouro das fotos, para aqueles que o perderam. Nós íamos para Tohoku encontrar pessoas que perderam suas fotos, e faziamos novas com filme instantâneo, e assim os ajudamos a iniciar novos álbuns. Nós também juntamos cameras digitais aposentadas por nossos amigos e antigas para oferecer aos destinatários album de modo que pudessem continua-los. Basicamente ajudá-los a recomeçar sua vida fotográfica. Assim nasceu “Photohoku”.

Photo por Allison Kwesell

2. Quando o projeto começou oficialmente?

Oficialmente o projeto começou 11 de setembro, que é quando nós fizemos a nossa primeira viagem para Tohoku, exatamente seis meses apos o desastre.

Pensamos mais tarde que, o projeto por ser, às vezes, altamente emocional, provavelmente não poderia ter funcionado tão bem se tivesse ocorrido em qualquer momento antes ou depois dos 6 meses do terremoto. Apos meio ano transcorrido, as pessoas afetadas foram capazes de começar a partilhar mais abertamente sobre sua perda, e mesmo às vezes se fechando mais, de alguma forma foram capazes de encontrar uma razão para sorrir para uma foto.

Foto por Allison Kwesell

3. Você poderia nos dizer mais sobre o começo do projeto – primeira cidade que visitaram, primeira família que conheceram, primeiras fotos que foram tiradas, o primeiro álbum que você deu?

A primeira viagem para Tohoku incluiu duas das cidades mais devastadas: Ishinomaki e Onagawa, ambas na provincia de Miyagi. Fomos com um bau de filmes instantaneos, cerca de 20 álbuns de fotografias, um punhado de câmeras doadas e nenhum plano. Naquela manhã, nós estávamos dirigindo em torno de um bairro portuario dizimado para ter uma noção do desastre e nos deparamos com uma das poucas casas ainda de pé. Um pequeno punhado de pessoas, jovens e velhos, pareciam ser uma família. Estavam indo para lá e para cá sobre a casa, com botas e luvas, com panos e baldes. Eles eram perfeitos para receber o primeiro álbum Photohoku.

Então nós viramos, estacionamos, e nos aproximamos deles com a nossa oferta para iniciar um novo álbum de fotos da família para eles. Mas nao eram uma familia. Eles eram um grupo de voluntários, incluindo alguns estudantes de Tóquio, que iriam ficar apenas um dia, dois irmãos que tinham vindo de Osaka para ficar indefinidamente em Ishinomaki logo após o tsunami e o dono da casa, Tosuke-san, todos reunidos por acaso. Eles nos disseram claramente que não estavam particularmente interessados ​​em um álbum, mas ficariam felizes se nos pudessemos dar uma mão com a limpeza da casa. Nós concordamos em ajudar e foram trazidos alguns panos, baldes e as instruções para limpar as paredes e o teto de uma sala em particular.

Em cinco minutos, os panos e água de balde que tinha sido dados ficaram completamente sujo e era óbvio para os nossos anfitriões que nunca tinhamos sido voluntarios antes.

Disseram-nos que os trapos que que recebemos foram dados a eles, e eram poucos, e que a água tinha que ser melhor aproveitada. Embaraçosamente tivemos que ser aprender como dobrar um pano corretamente, como fazer a água durar mais tempo e como limpar de forma mais eficiente. Mas era uma lição necessário para a compreensão da preciosidade e escassez de todos os recursos ali.

No final, todos concordaram em ter a foto tirada, colocado em um álbum, para a casa, e seguimos nosso caminho. Assim, talvez, a casa em si foi a primeira a receber um álbum do Photohoku.

Photo por Brian Scott Peterson

Então, um mês depois, durante a terceira visita, passamos pela mesma casa onde paramos pela primeira vez e encontramos os irmãos novamente e o dono da casa, Tosuke-san. Todos estavam surpresos ao ver-nos. Disseram-nos para esperar lá um pouco e momentos depois, um dos irmãos trouxe o álbum que tinha sido dado. Para nossa alegria, eles continuaram a encher as páginas do album com imagens de limpeza e reparos da casa progredindo e os rostos de todos aqueles que vieram ser voluntários e outros fotos de sua comunidade. Presumivelmente, eles não recebem muitos visitantes repetidos e o fato de que voltamos uma segunda vez os deixou maravilhados. Tosuke-san, o proprietário nos disse: “Você é como uma família para nós agora.” Nesse ponto sabiamos que o Photohoku estava funcionando. Nós, desde então, ficamos bons amigos de Tosuke-san e dos irmaos Yamamoto.

Photo por Allison Kwesell

4. O que vocês usam para tirar fotos? Ja consideraram o uso de outros equipamentos?

Colaboramos com a Fujifilm em projetos passados, nos quais pedimos alguns de seus filmes Instantâneos, de forma que pudessemos tirar as fotos e criar os albuns na hora para dar aos destinatários. Graciosamente a Fujifilm concordou em patrocinar o nosso projeto e nos enviou um pequeno arsenal de filme instantâneo nos formatos 3×4 e 4×5. Então nós usamos as câmeras que sao compativeis com esses filmes.

As câmeras têm sido em maior parte Polaroid, Mamiya, Linhof e especialmente as Konica Instant Press que são fáceis de usar para todos, e possui uma lente realmente incrível que complementa o filme muito bem, particularmente o FP-100 silky.

Um problema que temos com as câmeras instantâneas é que algumas delas são tão legais e interessantes que todas as crianças que encontramos querem usa-las. Nós aprendemos rapidamente que as mãos de crianças curiosas e lentes vintage delicadas não sao uma boa combinaçao. Então, uma idéia recente que tivemos foi de usar câmeras instantâneas mais acessiveis para as crianças, como a Cheki da Fuji, a Holgaroid, ou a Diana com o acesssorio Instant Back e deixamos cada criança disparar algumas fotos durante sessao e depois adicionamos essas fotos aos álbuns também. Espero que possamos repetir a idéia numa proxima viagem (Precisamos de câmeras e filmes! Dica!).

Foto por Allison Kwesell

5. O que é ou quais são os aspectos mais desafiadores do projeto?

A parte mais desafiadora do projeto Photohoku é simplesmente não poder fazer isso todos os dias. Estamos tao envolvidos no projeto que queriamos fazer isso o tempo todo. Mas vivemos em Tóquio e temos nossas famílias. Estamos felizes de ter alguns patrocinadores incríveis, mas muito do Photohoku é um trabalho de amor.

Até agora, nos foi dada a oportunidade de ir uma vez por mês, e levar mais de uma dúzia de pessoas em mais de seis viagens, começamos mais de 100 álbuns de fotos, doamos dezenas de cameras e inúmeras fotografias. Esperemos que no próximo ano possamos dobrar esse esforço e fazer duas vezes mais visitas, a mais lugares, com mais fotógrafos e ajudar muito mais pessoas.

6. Qual é ou quais sao os aspectos mais recompensadores do projeto?

Acima de tudo, o aspecto mais gratificante tem sido a capacidade de dar às pessoas um sorriso duradouro, um sorriso que eles podem olhar para trás, e lembrar o quão forte eles eram, e ainda são. Nós temos testemunhado como as fotos que demos iluminaram a vida das pessoas e as ajudaram a olhar nao apenas para o futuro, mas conectá-los ao passado. Um amigo comentou sobre o projeto dizendo que o lembrou “o quão especial uma fotografia pode ser enquanto ponto de referencia, mesmo nao podendo restaurar tudo o que foi perdido, ajuda a ligar o presente com o passado para o povo de Tohoku, enquanto tentam reconstruir suas vidas. Nunca o axioma: uma imagem vale mais que mil palavras, se encaixou tao bem”.

Photo por Brian Scott Peterson

Uma segunda recompensa foi a possibilidade de fazer o que amamos de verdade, fazer boas fotos, que fizeram a diferença. O projeto é fundamentalmente sobre a doação de fotos, mais do que simplesmente tirar fotos e, nesse sentido, tem sido quase uma abordagem radicalmente nova da fotografia para nós. Permitiu-nos como fotógrafos, de certa forma, desaparecer da foto em si, e com isso, permitir o assunto a brilhar, quase como uma banda musical ser simplesmente a catalisadora para a música que vem da platéia. O fato de que, literalmente, damos as fotos e que nós provavelmente nunca vamos vê-las novamente, compoe um sentido artístico, e carrega consigo a ideia de “agora” que é muitas vezes ausente em nossos outros projetos criativos.

Além disso, a Fuji tem graciosamente nos forneceu bastante de seu belo filme instantâneo e assim fomos capazes de fotografar sem reservas o que, por si só, é uma recompensa. Nakabayashi Co. ltd. começou a nos patrocinar com os álbuns de fotos. O filme e álbuns juntamente com câmeras incríveis, povo acolhedor, fotógrafos apaixonados e o fato disso tudo tornar o mundo um pouco mais brilhante, para todos torna desnecessário dizer, que não só foi uma honra, mas também um privilégio e uma alegria de ser capaz de fazer isso.

Photo por Brian Scott Peterson

7. Houve uma experiência especial ou inesquecível que você encontrou durante a realização do projeto?

Cada experiência é realmente especial e inesquecível. Encontramos algumas pessoas incrivelmente amáveis, ouvimos histórias inacreditaveis tanto de heroísmo quanto de perda. Nós rimos, nós choramos, nós fomos convidados para visitar as casas, recebemos comida, bebemos, recebemos abrigo, presentes, fomos bombardeados por crianças (que nos conhecem pelo nome), cantamos, e até mesmo pediram autógrafos. Cada momento se destaca no projeto. Em tudo isso, nós aprendemos que, mesmo se levarmos uma equipe de 6 pessoas, em pleno frio, e tendo oucas oportunidades para se conectar, que mesmo alcançando apenas uma família podemos ter um impacto sobre eles para o resto de suas vidas, talvez até mesmo após a sua morte. Sendo assim, todos os momentos foram valiosos e inesqueciveis.

Photo by Brian Scott Peterson

8. Por último, como as pessoas podem ajudá-lo com o projeto ou até mesmo participar nele?

Essencialmente, precisamos de ajuda financeira para obter fotógrafos, álbuns e passagens de ida e volta para Tohoku. Custa aproximadamente ¥ 10,000 (R$ 230) por pessoa com uma passagem de ida e volta de ônibus. Precisamos também de cameras usadas (ou novas) com carregadores câmeras e cartões de memória. Veja para onde enviá-las em nosso site: http://photohoku.org. Por favor, entre na nossa página do Facebook para obter mais atualizações e compartilhar com os amigos (e os tios ricos!) Precisamos de ajuda com organizaçao, com os sites, imprensa e logistica e, claro, fotógrafos que compartilhem das nossas idéias. Se você estiver interessado em ajudar, envie um e-mail para brian@photohoku.org (em ingles), yuko@photohoku.org (em japones) ou escreva para:

Photohoku
Entre House Komazawa
1-3-2-102 Komazawa
Setagaya-ku, Tokyo, 154-0012
Japan

Nós deixamos vocês com um clipe muito inspirador da equipe Photohoku, captando sorrisos e imortalizando-os em fotografias!

written by plasticpopsicle on 2012-01-18 #videos #lifestyle #lomography #fotos #japao #fotografos #estilo-de-vida-analogico #memorias #photohoku #terremoto-tohoku-2011
translated by vctrrl

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